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quarta-feira, 25 de julho de 2007

Encontro [2]

Quando abre os olhos apercebe-se instintivamente de que Mariana já não está na cama. Senta-se. Passa os dedos pelo cabelo. Puxa-os. Numa suspensão interminável revê a noite anterior. A saia plissada que ondulava graciosamente nas suas pernas. O corpo esbelto que, inexplicavelmente, parecia só agora reparar. A elegância dos gestos. A emoção ao vê-la sorrir. Os olhos, castanhos brilhantes, que lhe sorriam libidinosamente. As palavras não proferidas mas deveras esclarecedoras.
Pergunta a si próprio se todas as relações têm momentos como aquele. Momentos em que cada um tem plena consciência das necessidades do outro. Nem um passo a mais ou a menos. Sente-se exposto. Deita-se. Que sentimentos perduram ainda? Porque não está Mariana deitada a seu lado?

Encontro [1]

De olhos postos no tecto do quarto, deitada na cama, belisca-se. É muito mais que um acto de imaturidade ou vulnerabilidade. É um sinal claro da confusão que vai na sua cabeça.
Conhece Luís há 20 anos. São amigos. Amigos. Só amigos. Simplesmente amigos. Porquê agora?
Do Luís nunca esperou senão segurança. Conforto, vá. Que sentimento inconsequente é este?
Olha-o. Julga-o profundamente adormecido e decide passar-lhe a mão no rosto, sob o pretexto de lhe afastar uma madeixa da testa. Apercebe-se de como sempre gostou do seu cabelo desgrenhado. Estremece. Ainda de desejo. Réplica dos momentos vividos. Dos sentimentos que há muito não partilhava.
Deitada, agora sob o cotovelo, a esboroar-se por dentro, percebe como a sua ausência lhe doía. Na aparente neutralidade dos seus gestos, um bater do coração. Levanta-se. Vacilante veste a camisa de Luís perdida no chão.

terça-feira, 17 de abril de 2007

Luz [3]

Sentada na escada, ao lado do pombal, confidencia a Bia a falta que Francisco lhe faz.
- Se vais começar com essas coisas, abalo já daqui!
- Não... estava só a pensar alto. A verdade é que não consigo esquecê-lo, percebes?
- Ninguém te pede que o esqueças. Só queremos que sigas com a tua vida.
- Qual vida?...
- Bom! Começamos?...
- ...
- Anda! Vamos à cooperativa que eu preciso aviar-me.
Luz acompanha Bia mas não ouve uma palavra do que ela diz. E se Bia fala!... Já não sabe o que fazer para distrair Luz. Sente que o tempo da amiga corre ao acaso. Já não lhe pertence. Francisco levou consigo os desejos realizáveis que ela, ainda, podia ter. De pequenas e de grandes coisas. Só a imaginação de Luz não partiu com ele. Depois de uma vida inteira a versificar tudo o que de bom, ou mau, lhe acontecia, os poemas continuam a sair-lhe sem sequer se dar conta disso. Escreve-os mas já não os relê. Agora são diferentes. Traduzem uma dor que não quer sentir. Uma tristeza que não consegue esconder. Uma angústia permanente que quase a sufoca.

O teu rosto.
O meu olhar,
afogado em lágrimas sentidas.
A tua voz.
O meu grito,
insonoro e esmagado.
Os teus sentimentos vãos.
As minhas esperanças perdidas.


...


Bia deixa-se dormir. Já o sol vai alto quando se levanta.
- Bolas! A Luz já deve ter passado para ir buscar o pão.
Arranja-se rapidamente e sai com a mesma pressa de sempre. Não anda, corre. Mesmo quando tem vagar. A urgência, desta vez, acaba no último degrau que separa o seu terraço do dela. A casa absolutamente fechada de Luz apresenta-se a Bia como um mau presságio. Corre a buscar a chave e entra em casa da amiga com o coração na boca. Bia não precisa de ler os bilhetes espalhados pela casa para perceber o que está a acontecer. Em cima da cama, num aprumo imaculado, a mortalha. Desvairada ruma a casa de Manel Joaquim e, num só soluço, implora-lhe que vá ao Palacete buscar Luz.

Separados por um infortúnio, depois de uma vida inteira juntos, Luz e Francisco reencontram-se no dia do segundo aniversário da partida dele. No mesmo local.
Francisco partiu com 85 anos, Luz com 79.


Fim

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Luz [2]

Como quer que tenha sido, a morte de Francisco faz com que a Vila se una em torno daquele trágico “acidente”. O seu funeral é o mais concorrido de que há memória. Mórbidos, os locatários, querem ver o rosto contorcido da viúva, o corpo estraçalhado do defunto. Sem os desiludir, e sem ser preciso proferir as palavras que lhe queimam o peito, a figura de Luz, já de si franzina, agora disforme pela dor, pelo sofrimento, pela mágoa, pelo desgosto, pela embriaguez de lágrimas, chega para encher de pesar o espaço despido de velas, de incenso, de anjos, da sala onde se vela o corpo, em caixão fechado. O acto de Francisco nunca será perdoado pelo Deus católico. Provavelmente, nenhum Deus, de qualquer credo, receberá a sua alma. Todos, naquele espaço nu, sabem isso. Todos não. Luz não quer saber. Percorre, em pensamentos, a vida passada em conjunto. Deus não lhes deu filhos. Luz nunca lhe perdoou. Julga-se, agora, a ser castigada. Acredita nisso. Percorre os jardins do Palacete. Têm os dois vinte anos. Brincam como se tivessem dez. Estas imagens atenuam a fadiga estampada no seu rosto. Ama-o uma última vez. O poço... servido para pedir desejos, trocar juras, confidenciar segredos,... O poço... o sangue, a dor, o horror,... o poço... o Amor. O seu Amor. O Amor dele.
Quando os condes abandonaram o Palacete deixaram no poço a história das suas vidas. As histórias de todas as vidas das gentes da Terra. Deixaram a história do amor de Luz e de Francisco.
Luz chora sorrindo. Percebe a escolha. Não partiu sozinho.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Luz [1]

Tantas foram as vezes que fez aquele caminho que quase podia dar nomes às pedras por onde passa. Hoje, no entanto, tudo lhe parece diferente. Não reconhece as árvores e o vento traz um odor diferente. Entardece. Sempre gostou do crepúsculo. Caminha sem pressa. Procura ocupar a mente mas o som dos passos, no caminho de terra batida, só lhe traz o vazio. Vazio de pensamentos. Vazio de emoções. Vazio. Só vazio. Tão vazio que se vê obrigado a forçar uma memória. O rosto. Não o dela. O olhar. Não o dela. A voz. Não a dela. Tanto tempo no consultório e só recorda uma frase: “O tumor é maligno”. A seguir a dor. A dor da certeza. A dor da dúvida. A dor. A sua dor. Não a dela. A dela não. A dela nunca. Não é só a dor. É o sofrimento. O seu. Não o dela. O dela não. O dela nunca. O sofrimento agora. O seu. O dela não. O dela nunca. Acelera o passo. Não tem pressa mas não se quer atrasar. Não o faz por si. Fá-lo por ela. Ela será ainda feliz. Ele já não. Já não pode. Já não quer. Já é tarde. Não se pode atrasar. Nunca se atrasou.
Determinado descalça-se. Arruma os sapatos. Direitos. Lado a lado. Sempre arrumou aprumadamente os sapatos depois de os descalçar. Hoje não é diferente. Depois de a beijar, pousa cuidadosamente a aliança na borda. Sobe com alguma dificuldade para cima desta. Observa o reflexo da sua imagem no fundo. Não pensa em nada. O vazio. Outra vez o vazio. Ele, o poço e o vazio. Ela. Quer pensar nela. O seu rosto. O seu olhar. A sua voz. É ela, a Luz. Também a sua luz. O vazio enche-se de medo. Enche-se de horror. Enche-se de dor. De medo. De horror. De dor. Nada. Outra vez nada. Finalmente o vazio.