quarta-feira, 23 de maio de 2007
segunda-feira, 21 de maio de 2007
Um homenagem - seja lá isso o que for...
Que levas na garrafinha?
Que levas no alguidar?
Saudades do meu Zequinha,
Que vai para a guerra ser militar.
Que levas na garrafinha?
Que levas no garrafão?
Saudades do meu Zequinha,
Que vai para a guerra ser capitão.
Que levas na garrafinha?
Que levas que tão bem cheira?
Saudades do meu Zequinha,
Que vai para a guerra segunda-feira.
O pai de Rui voltou, felizmente, inteiro e sem aparentes sequelas. Assim, Rui só conheceu a dor da morte quando, aos doze anos, esta lhe levou a melhor amiga, com um cancro nos ovários. Rui não sabia o que eram os ovários mas teve, nesse dia 1 de Junho, a certeza de que eram coisas muito más. Passou a atribuir à morte o rosto dos ovários - fossem lá isso o que quer que fossem. A amiga era, por ventura, a melhor pessoa que Rui conhecia. E também a mais bonita. Ela tinha um irmão no Ultramar. Costumava escrever-lhe aerogramas. Todos os meses Cristina esperava, impaciente, pelo carteiro, o portador de fantásticas aventuras e mimos imensos. Os carinhos expressos, à pressa, no aerograma eram o motivo da ciumeira desmesurada sentida pelo Rui. Sentada na escada de acesso ao prédio onde residia, rodeada pelos amigos que com ela brincavam na rua, Cristina lia pausadamente, saboreando cada palavra escrita no aerograma. Enquanto a ouvia Rui vagueava pelos matos de África de camuflado vestido e arma ao ombro. Imaginava-se a escrever-lhe cartas de Amor e a aparecer na televisão, pelo Natal, a desejar-lhe Bom Natal e Próspero Ano Novo - significasse Próspero o que quer que significasse… Ah, como ele detestava aquelas tertúlias “aerogramicas”! Cristina, por sua vez, adorava a curiosidade que o irmão despertava nas amigas, o interesse pela guerra manifestado nos rapazes e, sobretudo, a atenção privilegiada uma vez por mês. Rui gostava de ver Cristina bem, mas quando era ele o causador desse estado. Quando a morte veio buscar Cristina deixou o coração de Rui envenenado de ódio. Não lhe viu o rosto. Não o deixaram ver Cristina morta. Veio-lhe à memória outra canção antiga. Uma que deixava sempre os olhos dela pejados de lágrimas:
Que fazes aí criança,
Sentada nesse penedo?
Quero ir ao cemitério,
Mas sozinha tenho medo.
Tu já não tens pai nem mãe,
Criança tão pequenina?
Eu não tenho pai nem mãe,
Vivo neste mundo sozinha.
Com a chegada do 25 de Abril e, com ele, o fim da guerra, Rui achou que a morte não mais o visitaria. Quando completou 14 anos esta veio buscar-lhe o avô. O avô partiu sem que dele se pudesse despedir condignamente. Não viu o rosto da morte prematura de Cristina. Não viu o rosto da morte natural do avô. Nunca vira o rosto da morte. Até hoje. Hoje viu o rosto da morte decadente, da velhice abandonada, da doença não assistida. A imagem da morte, de cujo cenário sempre escapou, é-lhe apresentada não como um encontro natural e espontâneo com a vida, ou com o fim desta, mas como o pináculo do horror. Lembrou-se de África. Lembrou-se de Cristina. Passados 30 anos o coração encheu-se novamente de ódio. Fez uma jura. Quando morrer quero estar tranquilo - seja lá isso o que for…
(ao meu padrinho)
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CaCo
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21.5.07
9
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segunda-feira, 14 de maio de 2007
A raiz da pele
Guardo na raiz da pele
os gritos, as emoções,
os desesperos, os medos,
a raiva, o ódio, a perfídia,
os sonhos, as frustrações,
as cicatrizes das feridas
que a vida em mim foi abrindo,
os mistérios, os segredos.
Guardo na raiz da pele
a verdade do que sou.
Deixo que à flor da pele
emirja a máscara, o sorriso,
o jogo de gato-e-rato
onde, estando, nunca estou.
Guilherme de Melo
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CaCo
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14.5.07
9
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quinta-feira, 10 de maio de 2007
O cheiro da minha infância
Considerei a Ana exemplar único até conhecer a Fátima. A Fátima é a versão aperfeiçoada da Ana. A Fátima não precisa de encostar o nariz às coisas. Detecta a essência a uma distância razoável. É como se tudo tresandasse.
Eu não memorizo cheiros. Guardo imagens, mas não cheiros. Procuro, desesperadamente, um cheiro de infância e não encontro. Será uma vida sem essência apanágio de uma infância inolente?
Quero recordar o fedor das goiabas esborrachadas (pela queda) no chão do quintal, a fetidez a cachorro quente, depois de um banho, com champô anti-carraças, na banheira lá de casa. Quero lembrar o cheiro dos livros novinhos, a estrear, no início do ano-lectivo, ou dos lápis de cor acabados de afiar. Quero buscar o cheiro inebriante dos foguetes, do fogo de artifício, ou dos panchões no Ano Novo Chinês; as fragrâncias anestesiantes dos pivetes a arderem nos templos chineses ou o cheiro nauseabundo do peixe a secar no Porto Interior. Preciso do perfume, encantador, da castanha assada no Inverno, da fedentina emanada pela sardinha nas feiras de Verão, do bedum dos wantan fritos, embrulhados em folha de jornal, vendidos numa bicicleta com atrelado, numa imundice extrema, à porta da Escola.
Quero lembrar-me do cheiro da vacaria do meu avô, do enjoativo odor do leite acabado de mungir. Quero lembrar-me do cheiro da minha avó, do cheiro do amor. Quero de volta o cheiro da minha infância.
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CaCo
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10.5.07
8
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terça-feira, 8 de maio de 2007
O Pi e as suas maravilhas...
π é um número irracional, isto é, não pode ser expresso como a razão entre dois números inteiros naturais. A irracionalidade de π foi demonstrada em 1761 por Johann Heinrich Lambert. Além de irracional, π é um número transcendente, o que foi provado por Ferdinand Lindemann em 1882. Isso significa que não existe um polinómio com coeficientes inteiros ou racionais do qual π seja uma raiz. Como resultado disso, é impossível exprimir π com um número finito de números inteiros, de fracções racionais ou suas raízes.
A transcendência de π estabelece a impossibilidade de se resolver o problema da quadratura do círculo: é impossível construir, somente com uma régua e um compasso, um quadrado cuja área seja rigorosamente igual à área de uma determinada circunferência. - in Wikipédia.
O primeiro grande encontro que tive com π foi, precisamente, num trabalho realizado para uma cadeira da Faculdade, Aspectos Fundamentais da Matemática, onde apresentei um trabalho sobre a quadratura do círculo (ou a impossibilidade dela).
O segundo encontro ocorreu no primeiro ano que dei aulas. Com apenas 23 anitos, fui colocada numa escola que servia miúdos de um nível sócio-cultural e económico muito baixo. A Matemática era, portanto, aquela disciplina para a qual (palavras deles) “nem valia a pena olhar”. Ainda assim, não faltavam muito. Eram insuportavelmente indisciplinados. Sem experiência, quase desesperava com eles. (Fica aqui a ressalva de que sabiam ser uns doces, quando queriam).
Quando me apercebi de que tinha de lhes introduzir o número π resolvi fazer uma experiência e levei-os para a rua (leia-se recreio da escola). Fomos todos descobrir o π.
Canteiros redondos, bancos redondos, tudo que encontrassem com uma circunferência (até foram à cozinha buscar pratos e copos...). A coisa pegou e, de quando em vez, fazíamos uma aula de rua. Falei com o Delegado de Grupo e resolvi apostar nas mini-fichas, comprometendo-me a passá-los se cumprissem um objectivo mínimo. Acederam, desde que pudessem ter as tais aulas na rua. A fórmula consistia em dar a matéria e 15 minutos antes de saírem faziam uma mini-ficha com o que tinham acabado de aprender (obviamente que não era diário). Obrigava-os a estar com atenção. Já se faziam apostas sobre quem seria ou não capaz de passar a Matemática. E tudo isto provocado pelo π.
O π sempre me encantou e, anos mais tarde, uma colega de Faculdade ofereceu-me “O Encanto do Pi”, onde pude descobrir algumas histórias fantásticas.
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CaCo
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8.5.07
4
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domingo, 6 de maio de 2007
sexta-feira, 4 de maio de 2007
Quarteto Be Jazz
(tocaram esta)
A vida é feita de momentos. Era bom que pudéssemos deitar fora os maus e reservar os bons. Não é o que acontece, na maior parte das vezes. Ontem vivi um bom momento. Um daqueles momentos que nos deixa estupidamente feliz. Por natureza vivo a alegria dos outros como se fosse a minha. (Também vivo as tristezas…).
Durante a minha vida de professora fiz, entre os alunos, alguns amigos. São amizades que ficam para a vida. Ontem, uma amiga, que um dia foi minha aluna, estreou-se publicamente como cantora de Jazz. No Cabana beach Bar, na Fonte da Telha, fui vê-la actuar. O Quarteto Be Jazz (espero que se escreva assim) actuou e encantou os presentes, que eram sobretudo os amigos. Eu estava lá. De sorriso nos lábios, e um orgulho desmesurado, aplaudi a minha amiga Águeda.
(Quarteto Be Jazz, no Cabana Bar)
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CaCo
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4.5.07
5
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quarta-feira, 2 de maio de 2007
Thinking Blogger

Todos os blogs que linkei nesta página são blogs que gosto de visitar, que leio com regularidade e que, obviamente, me fazem pensar. Eleger 5 seria demasiado complicado para mim. Não o conseguiria fazer de forma imparcial e, no entanto, só conheço, pessoalmente, 2 ou 3 pessoas.
Quando li a atribuição do prémio, e percebi que teria de escolher outros blogues, houve um nome que imediatamente me ocorreu: O complicómetro. Esse era o único que, sem sombra de dúvida, elegeria como o blog que mais me faz pensar. Não sei se é o que mais gosto, mas é o que mais gozo me tem dado ler. Estou certa que o autor, quando escreve, não lhe atribui a interpretação que faço ao lê-lo. É esse jogo que me atrai. Tal como o nome refere, o complicómetro é, na minha modesta opinião, um delicioso passeio pelos pensamentos e comportamentos que possuímos, assumimos e mostramos perante as mais elementares coisas que se nos deparam na vida. Ao invés de olharmos para elas com objectividade deixamos a nossa massa cinzenta fantasiar sobre o assunto. Delicioso. Não sei se o Luís o faz com essa intenção ou se é mesmo "complicadinho". Também não quero saber. Assim possa eu pensar sobre o assunto.
Estão todos nomeados.
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CaCo
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2.5.07
7
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